Artigos
O VER E O CRER 00/00/0000

(Jo 6,37-40)

Como Lucas, que ressalta a importância do ver e ouvir existencial como caminho espiritual para a sede do coração, também o evangelista João enfatizando o mesmo, todavia, combinando o ver e o crer como via necessária para o sólido crescimento e amadurecimento da vida de fé do discipulado. A fidelidade só é sólida quando se baseia em uma experiência real, palpável, tátil, audível, visível, sensível, e não na especulação racional, que se delimita – e, consequentemente limita – nas eloquências das definições e conceitos ideológicos abstratos. A experiência real toca nos dois pólos do sentido e do significado da vida: o aquém (a realidade enquanto tal ou, a imanência) e o além (a realidade ideal, aquilo que está por vir, sua plenitude ou, a transcendência): “Quem me vê, vê o Pai” (14,9) “Quem me odeia, odeia também meu Pai” (15,23; 12,45). Assim, Um testemunho feito com base na sua real experiência vivida de maneira tão equilibrada humana e divinamente como essa, não tem como não crer (1,18; 3,11-13). É uma consciência, dizemos, preventiva que aponta para a direção de uma vida mais fraterna e solidária.

O ver joanino se refere, nesse contexto, à experiência real, envolvente, o conhecer mais amplo e profundo da realidade que envolve a participação ativa, isto é, o fato que abrange e toca em todos os sentidos principais da nossa existência, tanto quanto, psicoemocional e espiritual, por isso mesmo incontestável (cf. 1Jo 4,14-15). É um tipo de conhecer, até para o além da realidade onde a razão do intelecto não alcança jamais a não ser através da razão corânica (do coração) da fé.

Já temos dito em nossas reflexões anteriores que o crer não é o mesmo que a fé ou, o fidelizar. Aparentemente são próximos, mas fundamentalmente são diferentes. Todo o ser humano é, pelo fato de sua origem divina, fundamentalmente um ser crente, contudo, nem todos os crentes são fiéis naquele que crê. Nem tudo aquilo que se crê é, de fato, verdadeiro, sólido, genuíno e que merece o crédito de aceitação plena e total, de fidelidade absoluta; enquanto que tudo aquilo que demonstra – na real experiência – a fidelidade, a genuinidade, a solidez, a segurança, a veracidade merece ser crido, e/ou acreditado.

O crer tende mais para o lado do trabalho especulativo do intelecto racionalizado em vista daquele ou daquela que se acredita como verdade. Ao passo que a fé não necessita, fundamentalmente, da intelecção especulativa e racionalizada. Pois, ela é antes de tudo, um dom gratuito de Deus, de uma parte e de outra, uma decisão, uma aceitação e adesão do ser humano por causa da real experiência de vida. A fé é uma entrega total, um abandonar-se porque já foi comprovada pela real experiência de que é verdadeiramente, segura, sólida e verídica, incontestável.

O crer é uma corrente, um fenômeno que pode se aumentar em algumas épocas e também pode diminuir, até desaparecer por completo, em outras. Mas isso não acontece com a fé. As pessoas podem um dia superar, modificar e até abandonar totalmente sua crença depois de um certo período de experiência, mas jamais negar a sua fé.

O crer que o autor prega nesse texto (v. 40) é algo próprio da comunidade joanina. Refere-se, na verdade, à compreensão bíblica da fé e não do conceito grego da filosofia. A fé definido pelo santo Tomás de Aquino é muito intelectualizada e, isso não corresponde tanto com a noção bíblica, que precede toda a compreensão posterior. Assim, santo Tomás define a fé como: o “ato do intelecto que assente à verdade divina, sob a influência da vontade movida por Deus mediante a graça” (II. II. q. 2a. 9). A compreensão bíblica da fé comporta, realmente, elementos da racionalidade, mas não da racionalização radical da filosofia grega como define Tomás de Aquino e que foi muito desenvolvido durante a idade Média, e assumido pela Igreja cristã romana. A qualidade intelectual da fé só se encontra mais evidente no Deuteroisaías (cf. Is 43,10). Segundo o profeta, nesse sentido, os israelitas são testemunhas de que demais nações podem conhecer Iahweh, crer nele e compreender que ele é o Senhor. O profeta afirma ainda que “aquele que crê, não deve se inquietar” (cf. Is 28,16).

O crer (do lat. credere), no verbo grego clásico, pisteuein que quer dizer confiar, aceitar como verdadeiro, demonstrar a confiança. E seu substantivo pistis que significa crença. Por exemplo: pistis theon que quer dizer, crença nos deuses, de que eles existem.

O termo habraico da fé do AT que se encontra na base dos termos do NT pisteuein e pistis, é o verbo ‘aman, que significa sólido, resistente, seguro, incontestável, ser firme; aí que vem a palavra fiel. Os substantivos derivados desse verbo são munah, que significa solidez ou firmeza (Ex 17,12) e ‘emet. O que é firme dá segurança (Is 33,6). Assim, o povo de Deus crê que o Senhor oferece sólida segurança por causa de sua fidelidade (Sl 36,6). “Um homem justo viverá pela sua fidelidade” (Hab 2,4), isto é, pela sua fidelidade ao Senhor. O termo aqui referido, nunca significa o ato subjetivo de crença ou confiança. O termo é comumente incluído entre os atributos de Deus (cf. Sl 30,10; 40,11; 71,22;91,4).

Por isso que o autor adota esse termo crer no seu contexto, porém com o significado mais original de segurança, solidez, veracidade, fidelidade, que são do contexto da noção bíblica da fé. Para João, a fé é que dá o verdadeiro saber, verdadeiro conhecimento: “quando se crê (ser fiel) é que se sabe com certeza” (6,69).

Seguir a Cristo não é obrigação. É uma decisão livre e espontânea de cada pessoa. Por isso, diz: “Todos os que o Pai me confia virão a mim, e, quando vierem, não os afastarei” (v. 37). Isto significa também que, tenha alguém que não vá, e mesmo assim, Jesus não condenará. O mais importante é ser, viver e fazer a vida de modo crístico conforme a vontade de Deus (cf. Mc 9,40).

Como está indo a nossa vida de fé? Conseguimos ver Cristo nas coisas de nossa vida cotidiana? Somos simples crentes ou fieis empenhados no discipulado do Nazareno? Conseguimos amar a Cristo nas pessoas e amar as pessoas em Cristo como ele nos amou? “Que toda pessoa que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna” (v.40).

________&&&_______

Lukas Betekeneng


Sede Provincial:
Rua Anchieta, 646 - Padre Eustáquio
Cep.30.720.370 - Belo Horizonte | MG
© 2014 Fráteres CMM
Direitos Reservados
SETH