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CRISTIANISMO: Um povo convocado para andar na contra-mão 01/05/2014

(Mt 20,1-16)

Para podermos entender melhor a intenção principal (a mensagem central) do pensamento do autor, é necessário prestar muita atenção na maneira própria de Mateus elaborar o seu pensamento, principalmente a ordem usada nesse relato metafórico e comparativo e a linguagem usada. Dessa forma, vamos tentar descobrir qual o problema enfrentado pela comunidade mateana, o seu possível adversário a e a posição da comunidade.

Já temos dito em outros momentos da nossa reflexão que o Evangelho de Mateus, diferentemente dos outros sinóticos e de João, é muito institucional. Ou seja, o Evangelho eclesial. A comunidade mateana é formada pelo grupo dos judeus, e são para eles o destinatário deste Evangelho. O desafio maior que a comunidade-Igreja mateana enfrenta são dos grupos judaizantes.

Os problemas principais vividos na comunidade-Igreja mateana, mostrado pelo autor são a relação entre duas estruturas: a da Sinagoga dos judeus e da Igreja dos cristãos. Também em relação à autocompreensão da identidade da primogenituridade tanto quanto do direito bíblico-teológico da vocação e salvação do Povo de Deus: quem é o primeiro a ser salvo.

Reunindo a parábola do empregador e trabalhador da vinha em 20,1-15 com os ditos sobre os primeiros e últimos em 19,30 e 20,16 e colocando-a na perspectiva da recompensa para os discípulos (19,27), o autor faz com que ele exemplifique a promessa de Jesus de Nazaré de que os discípulos, que agora considerados os últimos, serão os primeiros a receber recompensa (20,8).

Nesse relato-metáfora da comunidade mateana, o autor quer nos mostrar qual a discussão entre os judeus e cristãos: o direito da primogenituridade da salvação de Deus (questão escatológica). Mateus não negou que os judeus foram os primeiros a serem chamados e os cristãos, os últimos. Contudo, como pensamento de Deus está acima os dos homens (cf. Is 55.8-9), por isso essa ordem será invertida, os cristãos serão os primeiros, não pelos seus méritos, mas pelo amor total e incondicional de Deus. Assim fica claro que a lógica da justiça de Deus (dikaiosyne, em grego) foge da lógica de justiça do homem.

Mas nesse relato-metáfora o termo justiça não é o mais importante para Mateus. O que o autor quer destacar mesmo é sobre o amor beneplácito de Deus para com a humanidade, principalmente com os mais necessitados e indefesos. A caridade e justiça devem andar lado-a-lado, se complementam e corrigem mutuamente. Essa é a pedagogia do amor sadio, humanizante e humanizador.

A simbologia mateana de “um denário” como recompensa do labor do dia. O que isso, afinal, significa? É simples! O Deus de Jesus de Nazaré não faz distinção entre quem tem mais mérito e quem tem menos, e nem o plano dois para aumentar a graça e/ou diminuir porque alguém fez mais ou menos. Deus não tem mercado de troca de afazeres humanos com a graça divina. A graça é uma e única para todos, pois Deus é um e único e a humanidade é, também, uma e única. Somos uma unidade na diversidade.

Outra idéia clara que aparece desse texto é sobre a graça da salvação. É uma via de mão dupla: de Deus e do ser humano. A graça é uma oferta gratuita de Deus, mas precisa ser trabalhada pelos homens e mulheres da humanidade. Nesse sentido, o texto serve também como profecia para o nosso fazer caritativo e a nossa prática de justiça. Justiça não significa a mesmidade e a misericórdia não é o mesmo que dar o peixe. Devemos aprender a dar mais anzol e menos peixe. A caridade deve fazer o ser humano sentir capaz e valorizado, se reconhecer como alguém com potencialidade suficiente para dar à vida dele mesmo a dos demais, reconhecer como co-labor-a-dor por excelência de Deus na construção do novo céu e nova terra.

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Lukas Betekeneng


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