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CONVIVÊNCIA: Uma eterna arte da vida a ser construída no dia a dia 30/04/2014

VIVER É CONVIVER COM OS DIFERENTES

“O próximo é o meu outro ‘eu’ fora de mim”.

 

O ser humano é a graça de Deus em corpo e alma na terra; o estar no mundo com todos os demais seres criados é uma oportunidade única oferecida para ser abraçada e assumida; o viver é uma dádiva divina doada aos viventes, e conviver é uma arte da conquista diária. Assim, dizemos que homem algum é uma ilha issolada no meio do oceano. Assim, o título do livro de Thomas Merton. Isso quer dizer que, o ser humano é criado para ser e viver com. Eu me torno como sou, hoje, graças à minha convivência com os outros e as demais realidades que estão em meu redor. Sem eles eu sou nada; com eles, eu posso e sou “tudo”, hoje, e amanhã, e sempre mais. Para me tornar como sou, no aqui e agora e amanhã, eu preciso muito dos Outros e dos outros. Assim, o conviver e correlacionar são uma necessidade básica da humanidade: o ser humano é, desde o princípio, criado para ser e viver para com os outros (cf. Gn 2,18).

Eu sou parte dos outros, sou parte do mundo, sou fragmento do Planeta; o outro é o meu “tu” (o meu ‘eu’ distinto) fora de mim; por isso, a perda do outro, não só me empobrece, mas também, e principalmente, me enfraquece, pois sou parte essencial dessa humanidade criada à imagem e semelhança do Criador (Gn 1,26) e adotada para ser filho no Filho (Gl 4,5). Mas por que, na realidade cotidiana, o conviver e correlacionar com os diferentes se torna tão difícil? Por que tão difícil de aceitar e respeitar o outro como totalmente outro e viver e fazer como ele é? Por que tão difícil suportar as diferenças?

Conviver, mesmo sendo uma arte, não é uma tarefa simples e fácil de ser realizada; é preciso de muita sabedoria, maturidade, humildade, equilíbrio, responsabilidade e, acima de tudo, de muita paciência, compreensão, tolerância, respeito, autodomínio e diálogo permanente para garantir a paz, o equilíbrio e a harmonia na convivência com as diversidades. Por isso conviver é também uma contínua aprendizagem: aprender a acolher os diferentes, a respeitar o outro como outro diferente, a amar (e perdoar) as diferenças tidas, não como impedimento, mas como oportunidade aberta, como riqueza que fortalece, dinamiza e unifica. Como seria o nosso mundo sem os outros e os demais? Como seria o “eu” sem o “tu”?

O texto de Mateus (Mt 2,1-12) nos apresenta dois tipos básicos do comportamento de pessoas que se encontra no dia a dia de vida da sociedade, representados pelos magos e Herodes: uns (os magos) que, com alegria e entusiasmo, buscam constantemente os caminhos para o encontro com o outro afim de incluí-lo como parte integral da força de vida e de esperança para o futuro, ao passo que os outros (Herodes), com o ímpeto, o medo e o ódio, esperam por momentos oportunos para o confronto cuja finalidade para excluir o outro, pois para eles, o outro é o impedimento a ser tirado do caminho, o inimigo mortal a ser apagado do mapa da convivência.

O autor mostra, com detalhes, o anseio profundo e sincero, a sede do encontro dos magos com o menino, fruto da fé esperançosa, madura e humanizadora, de um lado e do outro, e o desejo oculto e o querer irônico, gerado na razão manipuladora e brutal do poder institucionalizado de Herodes. E mais, o episódio dos magos revela, na realidade, a própria experiência da comunidade-Igreja cristã primitiva que tinha da presteza dos pagãos em aceitar a fé crística da Boa Nova do Nazareno e a lentidão dos judeus para acolhé-la. Em vez de ignorá-lo, seria mais lógico que o Israel reconhecesse e acolhesse seu messias prometido. Tanto é verdade essa atitude de desprezo e ignorância por parte dos judeus que faz com Jesus tinha declarado publicamente dizendo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria (Lc 4,24).

Rejeitado pelo próprio povo e perseguido pela autoridade religiosa e política, o Messias é reconhecido, procurado e acolhido pelos que estão longe. São os não-judeus que acolheram a mensagem da Boa-Nova de Cristo, são eles também que aderiram ao movimento de renovação de vida, de transformação de mentalidade, de mudança de comportamento, são os primeiros que entraram e fizeram parte da comunidade-Igreja. Ao relatar as visitas dos magos, o autor resgata a memória do povo sobre a visita feita pela rainha do reino oriental de Sabá ao rei Salomão (cf. 1Rs 10,1-13). Assim, Jesus de Nazaré é o Novo Salomão.

Como está indo a nossa convivência comunitária, familiar, política, eclesial e social? Não raramente tratamos os outros, não como amigos e irmãos, mas como inimigo. Muitas das vezes queremos vencer, derrubar e até eliminar o outro. Mais fácil exigir dos outros serem como queremos do que respeitamos o jeito como eles são.

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Lukas Betekeneng


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