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A IGREJA-SINAL 28/04/2014

A IGREJA-SINAL

(Lc 21,27)

Como de costume, ao longo da história da humanidade, a situação de maior crise (thlipsis) – ética e moral política, econômica, social/familiar e cultural/religiosa – sempre foi lida e crida como uma seta apontada para a chegada do irromper do “último” dia. É o sinal da primavera do novo amanhecer (o kairós), o momento de regeneração, de renascimento, de crescimento e amadurecimento humano; há algo de diferente (qualitativamente), de especial (o novo homem e nova mulher, novo céu e nova terra) surgirá. Nesse momento de crise, a situação é de incerteza, de desconfiança, de maior dificuldade, de grande sofrimento, os sentimentos de medo e de esperança se misturam, a desorientação e confusão predominam a vida, é um tempo, completamente, de caos (o chronos). Algumas pessoas, tanto era como em nossos dias, sempre aproveitam essa situação para seu bel-prazer, apresentando camufladamente, cada um/uma como messias (o enviado ou ungido de Deus), o profeta, como libertador e salvador da pátria. Por isso, é necessário, nessa situação de pânico, viver a vida em contínua oração, em vigilância e cuidado redobrados para não cair na armadilha dos falsos profetas (falsos políticos e governos, tanto estatais quanto religiosos) com seus discursos e promessas – políticas e religiosas – mirabolantes (21, 34-36. Cf também Mt 24,25. 26 e Mc 13, 5. 6). Assim, toda essa situação de caos serviu de base (o chão da realidade) para ambientar a literatura “apocalíptica”[1]. O teor da linguagem apocalíptica (como também profética) pregada nesse discurso lucano (Lc 21) nos revela a gravidade da situação e, ao mesmo tempo, a amplitude do sonho de transformação, da presença do “novo” (21,27), sonho de mudança da realidade.

Como todos e quaisquer acontecimentos na vida, ou, se não todos, pelo menos na sua grande maioria, é fruto das mãos dos homens e mulheres, esse desastre nos revela, principalmente, a origem do problema: além da grave inflação (soberba) existencial dos homens, a crise profunda de identidade humana enquanto humano, criado à imagem e semelhança do Criador; mostra, além disso, a incompetência (ou a negação) no fiel cumprimento de sua missão como cooperador de Deus na contínua criação e recriação do mundo (Gn 1, 26). Revela, igualmente, o descrédito do líder enquanto pessoa e a má qualidade de sua liderança. Ou seja, a ação de liderança revela a qualidade (boa ou má) do líder, pois tudo aquilo que se expõe ao mundo foi tirado do tesouro de seu interior (cf. Lc 6,45). A Igreja enquanto comunidade de fé do povo de Deus, reunido em uma casa de oração e na mesma mesa do repartir do pão (e com toda a humanidade-imagem e semelhança) é capacitada para ser sinal vivo da presença salvífica de Deus. Ela é “com-voca-da” e/ou “pro-voca-da” para ser sinal de mudança, de transformação, sinal de justiça e de direito, sinal de liberdade-responsabilidade, sinal de comunhão real e ativa, sinal do diálogo e de mútua cooperação, sinal de paz e solidariedade, sinal de respeito, de perdão, de reconciliação e libertação. Mas essa Igreja só pode ser digna de ser sinal de Deus do Jesus Cristo no mundo da humanidade se ela está bem alinhada (seu viver, seus ditos e atos) com as inspirações evangélicas do mestre Nazareno (cf. Mt 10,24.25). Ou ela se liberta e libertar os outros ou seguir seu caminho costumeiro: se sucumbir ao poder, à posse, ao prazer e prestígio. Ser sinal de Deus significa soltar as correntes, abrir as vias, alargar os trilhos e construir as pontes e não levantar os muros, apertar algemas, dissolver a comunhão, fechar os caminhos, negar o direito, manipular ou inventar a verdade da Boa nova, impedir a liberdade e desfazer a união. Mas o que, afinal, significa o “fim” nesse discurso de Jesus lucano? Como se comportar diante da crise? Qual é a ideia base que está por trás desse discurso?

 

A. A Igreja de Cristo é chamada para ser leitor (intérprete) dos sinais dos tempos

A Igreja não é um mundo a parte. Ela também não é a melhor instituição (a mais santa, mais justa e mais perfeita) das demais. Como todas as instituições humanas e, portanto, culturais e mundanas, a Igreja também tem suas luzes e sombras, erros e acertos, potências e limitações, perspectivas e desafios[2]. A Igreja é também uma ovelha e/ou moeda perdida e achada, é um filho perdido e reencontrado (Lc 15,1-32). Esse autorreconhecimento de suas próprias realidades é, sem dúvida, um sinal de equilíbrio, de maturidade e de humildade. É bom lembrar, uma vez por todas, da pedagogia divina que mostra que a glória e o triunfo do amor de Deus sempre foram revelados em contexto de contraste, paradoxal: nas fraquezas, nos desprezos e derrotas (cf. Lc 14,11). É na luz da cruz que o Filho de Deus nos faz ver o brilho da humanidade imagem e semelhança do Criador. O próprio Jesus tem declarado veementemente de que ele não vem para chamar os que se denominam como “fortes”, “perfeitos”, “santos” e “justos” diante dos homens (cf. Lc 16,15), mas, pelo contrário, os “pecadores” (Mc 2,17), isso não significa, contudo, a exclusão dos primeiros, apesar de suas mentalidades opressoras e arrogantes. Pois todos aqueles que o procuram de coração e ir ao seu encontro, declarou Jesus, que ele não os rejeitará (Jo 9,37). Ele também se mostrou abertamente como amigo íntimo e defensor dos que foram considerados pecadores e pecadoras, por isso mesmo foram discriminados e excluídos, pelas lideranças religiosas e políticas. Ele acolheu a todos na mesma mesa de comunhão como irmãos do mesmo Pai celeste sem discriminação. A partir exatamente dessa realidade dual (“casta meretrix” = santa e pecadora)[3] da Igreja, e por isso mesmo, que ela foi chamada para ser instrumento (testemunha) de Deus para a vida de toda a criação, de modo particular a da humanidade-imagem e semelhança e filho no Filho primogênito.

Pelo sacramento batismal os cristãos se fazem o seguidor de Jesus de Nazaré, o Cristo-irmão compassivo e misericordioso. Seguir Jesus Cristo significa, entre outros, ser, viver, pensar e sentir, querer e fazer com ele, nele e como ele, para a glória de Deus Pai e para a felicidade dos homes na face da terra. Ou seja, dar a continuidade do seu verdadeiro projeto evangélico de proporcionar uma transformação do mundo cada vez mais irmão e mais solidário onde reina a paz verdadeira, a caridade libertadora, a liberdade-corresponsabilidade, o mútuo respeito, a justiça social e o direito para todos os filhos do Pai celeste, que não são outra coisa senão o penhor da plenitude do reino de Deus da fraternidade. Para isso, tornar-se o “alter Christus” (o outro Cristo) é o caminho a ser seguido. Como Jesus Cristo é a voz de Deus na humanidade, assim também a Igreja é a voz de Cristo ecoando no mundo da vida.

Os cristãos acreditam piamente de que Jesus de Nazaré é a verdadeira revelação (ou encarnação) de Deus no mundo. Essa convicção baseia-se na confissão de fé de São Pedro (Mt 16,16)[4]. Em outras palavras, todos os que foram batizados em nome de Deus triuno fazem a confissão de Pedro a sua fé no caminho do discipulado de Jesus Cristo. Foi com base nessa fé e no testemunho de vida e obras dos discípulos e apóstolos que se fundou e se multiplicou paulatinamente a comunidade-Igreja dos seguidores. Seguir a Jesus não é andar atrás dele passivamente, como gato seguir seu dono, mas de modo ativo e “creativo”, de olhos atentos a todos os fenômenos, de estar sempre em prontidão para ler e interpretar os sinais dos tempos, à luz da Boa Nova de Deus, em prol do bem da vida.

Como seu mestre, a Igreja também é provocada para ser leitor (intérprete) de Deus no mundo: ser olhos e ouvidos, ser boca, pensamento e sentimento de Jesus Cristo para anunciar a Boa Nova da graça de Deus, como ele, pelo mundo afora. Ela é continuamente interpelada (cf. Mt 16,3) para ficar sempre em vigilância e oração, atento aos sinais dos tempos, lendo-os criticamente, julgando-os à luz da Palavra de Deus e, enfim, agindo pastoralmente anunciando ao mundo - não apenas com o discurso homilético e/ou catequético/espiritual, mas também, e principalmente com a ação renovadora - o caminho da transformação. Ela (a Igreja enquanto indivíduo e, principalmente, o coletivo dos fieis) deve estar sempre em prontidão para ler (e interpretar) com atenção os acontecimentos (os sinais) que impedem a convivência fraterna: tudo aquilo que escraviza a vida, que agride a liberdade humana, que denigre a dignidade das pessoas, que manipula a justiça e nega o direito dos indivíduos, tanto isso praticado dentro da própria comunidade de fé quanto fora dela mesma. Dessa maneira, a Igreja torna-se, não apenas o leitor passivo dos sinais, mas também fazer-se o real porta-voz e fazedora viva e ativa da presença crística de Deus-amor (1Jo 4,8) libertador e salvador. Seu ser, suas vidas, seus ditos e atos devem ser, dessa forma, o sinal evangélico da mudança, do novo nascimento, da “re-nova-ação”- da renovação a exemplo do mestre Nazareno. A leitura crítica e serena dos sinais dos tempos somente é possível graças ao esplendor da luz do amor do Ressuscitado que brilha no íntimo dos fieis, como atesta o salmista: «Muitos dizem: “quem nos fará ver o bem?” Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz da vossa face» (Sl 4,7). O viver, o falar e o agir da Igreja (dos cristãos todos) devem imprimir a luminosa face compassiva e misericordiosa de Deus de Jesus Cristo.

A Igreja (o indivíduo tanto quanto o coletivo) tem essa missão de fazer resplandecer, no mundo da humanidade, toda beleza da luz da face de Deus no rosto desfigurado de Jesus Cristo, a “imagem do Deus invisível” (Cl 1,15), o “resplendor de sua glória” (Hb 1,3), “cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). Essa imagem do rosto desfigurado de Deus de Jesus Cristo está estampada nos rostos de todos os sofredores: os injustiçados, os excluídos, os explorados, os manipulados, os negados e oprimidos, os abandonados, os discriminados e agredidos do nosso tempo; são eles, o nosso próximo, independentemente das crenças e filosofias religiosas, gêneros e gerações, nações e culturas, “raças” e cores, ideologias políticas, profissões e posições socioeconômicas, são todos os nossos irmãos e irmãs que convivem conosco no mesmo lar, que encostamos da mesma mesa de comunhão para partilhar o mesmo pão em oração, que encontramos no dia a dia de nossas vidas. Nessas situações os sinais da presença de Deus se intensificam. Os cristãos em especial e toda a humanidade em geral são pro-voca-dos (Lc 12,54-59) para investigar em cada momento essas situações desumanas, ler criticamente e interpretá-las à luz da Boa Nova e, por fim, fazer transparecer a presença de Deus-Amor resgatador ( o El), o Deus da justiça, do direito e da paz, o Deus libertador e salvador da vida de toda criatura, de modo particular a da humanidade-imagem, semelhança e filho no Filho[5]. Assim, como afirma São Paulo: “... vós todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus...” (Gl 3,26)[6]. Reconhecemos, portanto, que esse chamado não é prestígio nem tarefa específica e, portanto, exclusiva nem dos bispos e nem dos padres e religiosos/religiosas (os celibatários), mas é a responsabilidade profética e missionária de todos os batizados, homens e mulheres de todas as raças, gêneros, culturas e gerações juntamente com todos aqueles e aquelas de boa vontade (todos os que se chamam de Ser Humano).

B. A Igreja de Cristo é interpelada para ser porta-voz do “novo”

Deus necessita realmente do ser humano (cf. Is 6,8. Mt 9,37.38) tanto como o ser humano depende totalmente de Deus (cf. Sl 22,1. Dt 33,27. Mt 27,46). Essa primeira parte da afirmação pode soar um pouco estranho nos ouvidos de algumas pessoas. Mesmo porque, durante nossa formação espiritual, religiosa e catequética nas escolas, nas comunidades consagradas de formação inicial, ou, até mesmo nos seminários e nas universidades de filosofia e teologia, tanto quanto, nos discursos homiléticos nas igrejas e nos encontros de formação pastoral, raramente ouvimos esse tipo de afirmação que diz que “Deus precisa do ser humano”. Acostumamos, sim, a ouvir – e sempre cremos e repetimos constantemente – e radicalizamos – de forma automática, isto é, sem o acompanhamento do pensamento crítico saudável e construtivo – é a ideia que fala que “Deus nunca necessita nem do ser humano, nem de nada e nem de ninguém, pois é aquele que “tudo sabe”, “tudo pode” e “tudo domina[7]. E pior ainda quando diz que Deus criou o ser humano porque quer, ou seja, sem as outras intenções. Esse tipo de pensamento nega totalmente o objetivo do Criador e o conteúdo real da teologia da Criação (cf. Gn 1,26-28). Esse tipo de concepção de Deus tira, consequentemente, o ser humano de seu valor e sua responsabilidade missionária (seu papel de co-labor-a-dor, de parceria). Nega, igualmente, a intenção original de Deus no princípio da criação do ser humano à sua imagem e semelhança e o adotou como filho no Filho (Gn 1,26-28. Gl 3,26).

O que quer dizer: “ser porta-voz” de Deus? Por que Deus precisa de nós seres humanos limitados como porta-voz do Ilimitado? Todas essas questões e outras mais nos fazem sentido. Ser porta-voz de Deus significa ser seus “olhos” e “ouvidos” para com o próximo, ser suas “mãos” e seus “pés” para fazer novas todas as coisas na face da terra e ser sua “boca” para anunciar a Boa Nova pelo mundo afora. Ou seja, escutar sua Palavra-vida atentamente, assimilar com agudez a sua mensagem nova e renovadora e agir conforme a sua vontade (Jo 4,34; 8,29. 47). Isso não significa substituir Deus (ou, ser Deus) em interações na humanidade, é, pelo contrário, ser instrumento na mão do verdadeiro e principal “ator” divino (Fl 2,13. Jo 5,19)[8]. Ser profeta ou porta-voz é ecoar a profecia de Deus no mundo marcado pela violência, pela injustiça, pelo poder feudal manipulador, autoritário e colonizador dentro e fora da Igreja. Isto é, decodificar os “ruídos” de Deus e ecoá-los ate chegar nos ouvidos e nos corações do mundo, denunciando o pecado e anunciando a graça. Isso não é fácil, uma vez que a voz de Deus não é clara; por isso é preciso de muita oração e contemplação, reflexão e diálogo.

Jesus de Nazaré foi – e será sempre – o verdadeiro Filho amado, o servo escolhido, o fiel Porta-voz do Pai que desceu do céu para denunciar e anunciar a chegada do Reino de Deus da fraternidade (Mt 3,17. 12,18-21). Para chegar a este ponto de consideração, Jesus tem de trilhar o caminho (passar pelo processo) de aprendizagem, de crescimento e amadurecimento, de ser humilde no reconhecimento de suas próprias limitações e reconhecer, igualmente, a manifestação da verdade de Deus nos outros (cf. Mc 7,24-30. Lc 2,52. Fl 2,6). Para Jesus, só Deus é bom (Mc 10,18) e o ser humano tem de aprender a cada dia para ser bom como Deus (cf. Mt 5,48). Foi essa atitude de bondade extrema que faz com que os discípulos o chamaram de o “Cristo de Deus” (Lc 9,20).

A Igreja cristã (os batizados e as batizadas) é chamada para trilhar esse mesmo caminho: ficar atentos aos sinais dos tempos em estado de contínua oração e contemplação, se alimentar e fortalecer sem parar da Palavra-Vida de Deus, interpretar com crítica e comunicar ao mundo a verdade divina de forma clara e convincente. A Igreja, neste papel de porta-voz (profeta), não é o personagem que advinha o futuro, mas é aquele que anuncia e clama, que reclama e brada “em nome de Deus”. Ela não pode nem deve silenciar toda a prática que não está conforme o Evangelho, tanto dentro dela mesma quanto fora. Como Jesus, assim também a Igreja deve ser uma “verdadeira fonte de água fresca”[9] descendo da altura e que corre no meio da praça do povo de Deus, espalhando o frescor da graça da salvação. Os cristãos, antigamente, são aqueles que recebem, de olhos vendados e de boca calada, o dogma, a doutrina, são quem acreditavam com espírito de docilidade infantil as verdades da hierarquia. Mas agora, percebe-se que, os cristãos são os seguidores de Jesus de Nazaré, o Cristo-irmão-libertador que luta pela libertação de todo o povo, são os que buscam sem cessar a verdadeira fonte, a água salutar de vida nova no Evangelho. Os cristãos, hoje em dia, se tornam mais maduros, mais críticos e mais responsável no seguimento do discipulado e não apenas receptores cegos e dóceis da ideologia dogmática e doutrinária de uma igreja, fortemente, hierarquizada, exclusiva e excludente, feudal e centralizadora, expansionista e discriminatória. A teologia – e toda a formação espiritual e religiosa – antigamente foi feita, não para alimentar a fome e sede do amor do povo de Deus para o seu crescimento e amadurecimento mais saudável, mas para proteger e elogiar a glória do poder, da posse, do prestígio e do prazer da autoridade hierárquica. Todos aqueles e aquelas que falam diferente do poder central da Igreja institucional são obrigados a calar a boca, serão intimidados/as, serão excluídos, perseguidos, banidos e jogados na fogueira, e suas obras são todos confiscadas. Graças ao Papa João XXIII que, através do Concílio Vaticano II (1962 – 1965), recuperou (ou, incentivou a todos para a recuperação) o direito e liberdade dos batizados, na Igreja e no mundo. A Igreja de Cristo pós-Vat. II recuperou, enfim, sua imagem, reencontrou sua teologia, os povos reencontraram seus direitos, sua dignidade, sua liberdade e sua responsabilidade. E, em nossos dias, o novo Papa (Francisco) vem refortalecendo essas inspirações bíblicas originais em relação ao direito, á liberdade, á dignidade e á responsabilidade de todos os batizados como penhor da plenitude do Reino esperado de Deus, na vida da Igreja e no mundo.

 

C. A Igreja de Cristo é comissionada (enviada) para ser exemplo de mudança

“Ninguém, depois de acender uma candeia, a cobre com um vaso ou a põe debaixo de uma cama; pelo contrário coloca-a sobre um velador, a fim de que os que entram, vejam a luz” (Lc 8,16-17).

“Como a árvore é reconhecida pelo fruto que produz, assim, também uma pessoa é reconhecida pelas obras realizadas. Pois nunca se colhem figos de espinheiro e nem se vindimam uvas de sarças” (Lc 6,43. 44).

A Igreja como comunidade dos fiéis reunidos em Cristo e com Cristo, e que crer em um único Deus que trabalha sem parar para a vida do seu povo (Jo 5,17), a sua grandeza não consiste no que ela pensa e fala no topo do púlpito do poder, da posse, do prazer e prestígio para o mundo inteiro, com eloquência, mas, pelo contrário, no que ela escuta de Deus e põe em prática no dia a dia, no vale de aridez da vida humana (Lc 8, 19-21. 4,18-19). Todas as obras da Igreja é um exercício humanitário de cidadania, orientada pela luz da Palavra de Deus. Ou seja, a Igreja procura descobrir a vontade de Deus e realizá-la com responsabilidade em prol do bem-estar de vida e da salvação da humanidade inteira. A humanidade não necessita das explicações retóricas, mas de exemplificações práticas de vida cristica.

É por esse objetivo que ela foi pro-voca-da (Lc 6,20-26) e comissionada para dar o exemplo, para fazer diferente, não como fazem os tiranos do mundo, mas como Deus quer: servindo o povo de Deus, fazendo-o para ser protagonista de sua salvação, e não servindo-se do povo, manipulando-o como objeto de caridade para seu bel prazer, para arrancar os elogios dos pobres como benfeitor (cf. Mt 23,1-12. Mc 10,45). Ela foi chamada, não para agir repetindo os feitos tradicionais dos antepassados que não representa a justiça, o direito e a liberdade, mas a nova ação que imprime a chegada do Reino celeste hoje, neste lugar, no aqui e agora da vida (Lc 19,9), onde Deus é tudo em todos (1Cor 15,28). O Jesus de Lucas supõe que a comunidade-Igreja não só seja aberta, mas é também que a comunicação e a participação deve ser real e ativa. Uma vez que a mensagem-vida de Deus foi dada não para um grupo privado, uma classe seletiva ou um sectário farisaico, mas foi um anúncio público, isto é, para toda a humanidade (Lc 8,17). Esse anúncio da mensagem de Deus não é um direito e/ou merecimento conquistado, mas uma tarefa missionária de toda humanidade, uma responsabilidade, tanto para quem escuta quanto para aquele e/ou aquela que se dispõe a anunciar.

A ação da Igreja enquanto instituição tanto como povo peregrino de Deus não pode ser como um ato para a própria glorificação (Jo 8,54), mas deve, sim, revelar com eficácia o sinal da presença ativa e do agir salvífico do Pai celeste, a origem e o destino da vida de toda a criação (Mt 5,16). Para Jesus de Lucas, há uma relação íntima entre a árvore e os frutos, o homem e o seu depósito interior, o coração (Lc 6,43-45). Ou seja, a ação humana e eclesial é o termômetro de verificação da qualidade originária e originada da mentalidade, do comportamento ou caráter, de toda a estrutura psicoemocional e moral cultural e religiosa da pessoa. A ação da Igreja de Cristo não deve nem iludir e nem traficar – direta ou indiretamente, consciente ou inconsciente – o próximo para um engano de felicidade e salvação de vida fácil, dependente, frio feito refém da caridade colonial e paternalista, mas, pelo contrário, deve ajudá-lo a se reerguer e tornar-se protagonista libertando-o, dessa forma, de toda a escravidão, conscientizando e resgatando-o do seu valor corrompido e sua dignidade ferida como filho de Deus libertado, pois foi para a nossa liberdade que Cristo vem para nos libertar (cf. Gl 5,1).

Como conclusão, dizemos que toda a criação de Deus é sinal de sua presença viva e ativa. E o ser humano como sua criação por excelência (criado à sua imagem e semelhança) é capacitado – com a força da racionalidade, da sensibilidade e vontade de ser e viver – e comissionado para ler e interpretar a manifestação do “desejo” do Criador, no meio dos sinais da morte potencial, e pô-lo em prática. Também é “pro-vocado” - provocado (interpelado) e enviado para exemplificar na sua vida concreta do dia a dia a convivência solidária, dialogal e tolerante do amor fraterno segundo o plano de Deus, anunciado e vivido pelo Jesus de Nazaré junto aos seus, o Cristo irmão compassivo e misericordioso, durante sua passagem pelo mundo.

Neste discurso do “fim” o autor da comunidade lucana tenta projetar sua visão sobre os acontecimentos da história, em etapas e graus sucessivos, na qual Deus realiza o plano da salvação da humanidade (dos fiéis). Esse plano salvífico de Pai foi inaugurado pelo Filho (Jesus de Nazaré) através de sua vida, paixão e morte na cruz. Assim, a continuação da vida (a redenção) passa, necessariamente, pela dor, paixão e morte. A reflexão sobre o fim da história de Jerusalém[10] é projetada e/ou personificada pelo fim trágico da história da vida de Jesus de Nazaré. Jesus e sua cruz (sua vida, paixão, morte e redenção) são, portanto, a personificação de um povo e seu sofrimento e sua vitória final. A salvação e redenção definitiva da vida dos fiéis (o “novíssimo” ou a vida escatológica) na tradição lucana do Evangelho são uma visão teológica unificada, as formas pedagógicas para resgatar o valor e sentido da fé da Criação e Encarnação de Deus na humanidade. O fim desse discurso lucano mostra uma visão do fim diferente, não triunfalista, no qual a história é negada e engolida, mas é um convite à atenção, à “metanoia” (mudança do caráter e/ou da mentalidade), à reflexão no presente.

A ideia base nesse discurso escatológico é para dizer que o mundo (a vida) é sempre recriado a partir do caos, portanto, não terá fim. O bem da vida sempre prevalece sobre o mal e se confirma como vitoriosa diante da morte. Em Deus, a vida não terá fim, nada se perde, tudo cresce e tudo se transforma. A crise não é o obstáculo, muito pelo contrário, é o momento oportuno (Kairós) para o crescimento e amadurecimento da vida e da fé.

Dentro da situação de crises, assim como Jesus, também os cristãos são convocados à resistência evangélica, à perseverança unânime na graça de Deus, à confiança e esperança escatológica, à assiduidade ao ensinamento dos valores da vida, ao testemunho libertador e salvífico: “Eles mostravam-se assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, ao repartir do pão e às orações” (At 2,42. Cf., também Mt 24,13). É nessa situação que a Igreja - enquanto indivíduo e/ou coletivo - é provocada (chamada), interpelada e comissionada para ser sinal da presença viva e ativa: ser olhos, ouvidos e boca, ser mãos e pés de Deus no mundo: “Quem hei de enviar? Quem irá por nós?” (Is 6,8) Pois “a colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos” (Lc 10,2).

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[1]. O termo “apocalipse” é do grego (apokálypsis) que significa a “revelação”. É uma junção de duas palavras: do “apo”, ‘tirado de’ e ”kalumna”, ‘véu’. Na terminologia bíblica - judaica e cristã - a palavra “apocalipsi” significa a “revelação divina”. Deus teria revelado, ao povo, as coisas novas que até então permaneciam secretas a um profeta escolhido e ungido por Ele. Há dois livros de apocalipse na Sagrada Escritura: o de Profeta Daniel (no AT) e de João (no NT).

[2]. Como comunidade humana limitada onde se reúne homens e mulheres e que sempre está propensa ao mal, a Igreja de Cristo não é uma instituição totalmente santa ou totalmente pecadora, mas é “santa-pecadora” (casta-meretriz) ou, meretriz santificada.

[3]. A santidade e pecaminosidade são realidades de vida humana integral. Abstraindo, uma ou todas, essas realidades, a humanidade não será mais humanidade. Essa consciência foi imprimida pelo Santo Ambrósio de Milão (340-397), dizendo que “a Igreja (o povo de Deus) existe de duas formas: aquele ou aquela que não conhece pecado ou como aquele ou aquela que deixa de pecar. A Igreja é, originalmente, santa, mas ela pertence os pecadores pois, como comunidade humana, sua própria vida sempre se inclina ao pecado. Para esse assunto, ler o livro de Álvero Barreiro, intitulado “Igreja, povo santo e pecador”. São Paulo, Loyola, 2001.

[4]. Essa confissão colocada na boca de Pedro é, também, a verdadeira confissão de fé das primeiras comunidades cristãs onde São Pedro, provavelmente fundou, viveu e trabalhou. A confissão de fé petrina se baseia, sem sombra de dúvida, na maneira de ser, de viver, de pensar e sentir, de falar e agir de Jesus de Nazaré. Esse modo diferenciado de Jesus que faz com que os discípulos e seguidores os chamaram de “o Enviado de Deus” ou até mesmo, o “Deus” encarnado. Essa confissão de Pedro serve, portanto, de referência na vida da Igreja desde as primeiras comunidades até hoje e pelos séculos afora.

[5]. A Igreja imprimiu a consciência de sua responsabilidade batismal, vocacional e missionária através de sua Constituição Pastoral (um dos seus documentos conciliares do Vaticano II) “Gaudium et Spes” (Gs, 4): “É de responsabilidade da Igreja de observar e examinar minuciosamente os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira atualizada e adaptada a cada contexto e geração, às interrogações eternas sobre o significado da vida presente e futuro e de suas relações recíprocas. Para isso, é necessário conhecer e entender o mundo em que vivemos juntamente com suas esperanças, aspirações e seu índole muitas das vezes dramáticos”.

[6]. Essa foi a razão com que Dom Elder Câmera chama todos os pobres, sofredores, e humilhados e explorados – política e religiosamente – como “irmãos de sangue”. Para Dom Elder, por causa de sangue de Jesus de Nazaré nos faz irmãos uns para com os outros.

[7]. Essa ideia (ou conceitos) de Deus “tudo sabe”, “tudo pode” e “tudo domina” é um conceito abraâmico (conforme a experiência de Abraão no deserto) baseado na experiência cultural do povo nômade (no Primeiro Testamento), no deserto do Antigo Oriente.

[8]. Madre Teresa de Calcutá tinha dito uma vez que ela é o instrumento feito caneta na mão do Escritor divino no mundo dos pobres escrevendo a história do amor de Deus para com a humanidade.

[9]. O Cardeal Ottaviani, prefeito do santo ofício, diz que a Igreja pré-Vaticano II tinha de ser ou, se considera a si mesmo, e assim, ela agia, como “um baluarte diante do mundo contemporâneo”. O Papa João XXIII, o porta-voz que grita no deserto da Igreja, fez uma “virada copernicana” de cento e oitenta graus, sugerindo para a Igreja não se vê como um baluarte, mas como uma “verdadeira fonte de água fresca no meio da praça do povo”.

[10] O anúncio dos sinais premonitórios (21,7-11. 20-24) da destruição do Templo e da cidade de Jerusalém, em 70 d.C. pelo exército romano, e da salvação definitiva (escatologia) da humanidade (dos fiéis da comunidade lucana) com os mesmos sinais premonitórios (21,25-33). Essa descrição do fim do Templo e de Jerusalém no relato escatológico da tradição lucana do Evangelho, inspira-se em parte no clichê literário dos profetas, e em parte no relato histórico da queda da cidade e do Templo que eram centros sociopolítico, econômico e cultural/religioso dos judeus.


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