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O AGIR E O SER 28/04/2014

O AGIR REVELA A QUALIDADE DA NATUREZA DO SER

Praticar o bem e evitar o mal”

(Mc 3,1-6)

 

O autor da comunidade-Igreja de Marcos apresenta o clímax da história de confronto entre o “antigo” farisaico e o “novo” jesuânico, o quinto conflito consecutivo de Jesus de Nazaré, o portador da Notícia Alvissareira de Deus, com seus adversários (os partidários de fariseus e herodianos) na sua terra natal, Galileia. Mas, por que o comportamento e ensinamento de Jesus são vistos como ameaça? Por que os fariseus temem tanto com a novidade trazida por Jesus? O que é que, na realidade, está ameaçado por causa do comportamento e ensinamento de Jesus, a religião ou o privilégio religioso? Por que o prazer intuitivo de eliminar, de punir e de matar os outros por causa da diferença é tão presente e dominante no pensamento, no sentimento e na vontade do ser humano? Por que os homens têm tanta dificuldade de suportar o modo de ser e viver diferente dos outros?

Nesse quinto e último confronto aberto de Jesus de Marcos com seus adversários, revela definitivamente a autonomia, a autoridade e a liberdade do Filho do Homem sobre todas as leis e costumes, prescritos por mãos humanas. A religião enquanto sistema e seus preceitos, na concepção de Jesus marqueano, é a obra do homem sob a luz do Espírito divino para auxiliar o próprio homem se relacionar com seu Deus, com o próximo e com os demais, e não o homem para a religião. O ensinamento e comportamento de Jesus fazem com que os fariseus – e escribas – tanto quanto, os herodianos temem, não com os estragos da religião, mas com os seus privilégios religiosos. Eles se fazem dono da religião para obter o benefício próprio manipulando o povo com suas ideologias religiosas e suas espertezas, inventando leis e normas rígidas em nome de Deus para amedrontar e controlar o povo, mantendo-o, dessa forma, continuamente sob o seu domínio, explorando-o feito escravo. Temem, porque a atitude libertadora de Jesus diante do rigorismo religioso hipócrito pode fazer com que o povo consegue ter consciência mais crítica sobre sua situação e, então, lutar pela sua digna liberdade de filhos de Deus e sua autonomia e que faz com que eles perderão o prestígio, o poder e a posse.

Com uma pergunta provocadora baseada no próprio conhecimento dos adversários, Jesus liquida, de uma só vez, a casuística dos piedosos: “É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer” (v.4)? Com essa provocação, Jesus quer que o princípio fundamental da compreensão da Lei do sábado seja rediscutido. Todavia, eles não querem arriscar, negam-se a responder e preferem ficar em silêncio tramando suas armadilhas. Com seu ensinamento renovador e seu comportamento libertador, Jesus incomoda essas pessoas piedosas que se fazem dono da religião e fiscais da fé, desmascarando suas hipocrisias religiosas e políticas, de tal modo que eles não vêem a hora de o assassinar. Para executar seu crime, os fariseus precisam unir suas forças com os partidários de Herodes Antipas, que governa na Galileia sob autoridade do império romano. Juntos vigiam todos os passos de Jesus, atentos às suas palavras, não para assimilar suas mensagens, mas para poder servir de motivos para matá-lo. O ser humano, por incrível que pareça, não conseguiu tornar-se humano, até hoje, sempre se inclina para dominar e subjugar o outro em vez de conviver harmoniosamente com os diferentes, respeitando o seu jeito de ser, de viver e fazer. Sempre vê o outro, não como companheiro, isto é, estar na mesma companhia, mas como impedimento.

Conforme o mandamento principal (cf. Mc 12,28-34), a vontade de Deus consiste no praticar o bem e evitar o mal. Além disso, os próprios rabinos têm estabelecido uma regra correspondente – de salvar a vida – aplicável ao sábado. O que Jesus tem feito, no dia de sábado, este e outros anteriores, está dentro da norma, isto é, de acordo com a ortodoxia rabínica. Com os ditos e atos de Jesus, o problema dos piedosos, agora, está descoberto ao olho nu: a contradição entre ortodoxia e ortopraxia (teoria e prática), suas teorias e orações não correspondem com suas práticas convivenciais do dia a dia, como dizem os latinos: “faça o que eu digo, mas não vê o que eu faço”. O olhar de indignação de Jesus (v. 5) demonstra a tristeza de Deus por causa da arrogância e dureza do coração dos fariseus, dos escribas e dos seus partidários, de não permitir a realização da vontade salvadora e libertadora do Pai na vida de seu povo necessitado e oprimido. A dureza de seus corações (cf. Mc 6,52; 8,17; 10,5) confirma, de fato, a vontade de querer permanecer no mal. De tal dureza os seus corações a ponto de não conseguem reconhecer seus próprios erros e limitações, contudo, avaliam os ditos e atos silvíficos de Jesus como rebeldia, violação das regras, transgressão da Lei, da tradição.

Jesus manifesta aos pequenos abandonados e explorados, aos injustiçados e excluídos o seu amor compassivo e misericordioso, revela a sua força de vontade libertadora para a salvação da vida dos necessitados, nos quais se torna visível o rosto amoroso de Deus-Pai: “misericórdia é que eu quero, e não o sacrifício” (cf. Mt 9,13). Isto é, a vontade de Deus passa por cima de todas as regras, costumes e preceitos religiosos, pois o mais importante é a vida humana-imagem e semalhança e filho que está em perigo, e não a religião e as suas jogadas políticas e ideológicas.

Com isso, o autor da comunidade-Igreja de Marcos quer assegurar aos seus membros que Jesus de Nazaré, o Cristo-irmão compassivo e misericordioso defenderá com generosidade à sua fé nele (2,5), porque ele veio para os pequenos abandonados, injustiçados, explorados e excluídos (2,17) como amigo e irmão que dá a sua vida por amor (cf. Jo 15,13), como senhor amoroso, compassivo e misericordioso do sábado (2,27; 3,4-5).

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Lukas Betekeneng


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